Gosto das coisas perfeitas. Bem-feitas, bem-acabadas, redondas. Sim, redondas, porque tudo o que é circular encerra em si essa ideia de perfeição, de completude. E quem é que não quer se sentir completo ou perfeito?
Quando nos cercamos de coisas perfeitas, é como se nos aproximássemos, de alguma forma, da própria perfeição. Gosto do alinhamento dos quadros na parede, da minha Le Creuset vermelha sem nenhum arranhão, dos tapetes limpos e imaculados, das roupas bem passadas, dos livros alinhados, da ordem e do progresso (ao menos no que tange à vida pessoal). Gosto quando o bolo assado sai inteirinho da forma, quando o suflê não desanda, quando consigo cumprir todos os prazos. Gosto quando encontro facilmente as coisas porque estão bem organizadas e não é custoso ou perda de tempo apanhá-las. Gosto de pensar que_ às vezes, mas só às vezes_ as coisas estão perfeitas. E que a vida assim não só é melhor como é possível.
Mas as coisas, como as pessoas, sofrem desgastes. Sofrem pelo uso e pela ação do tempo. Desbotam, lascam, se desalinham, se descompõem. As coisas, como as pessoas, são dadas à imperfeição. E o imperfeito não é de todo feio. Nem condenável. A primeira vez que dei por uma pequena lasca em minha Le Creuset vermelha, quis chorar. De pura raiva. Tinham-lhe roubado o aspecto de coisa nova, de coisa perfeita. Não era mais a chaleira mais bonita do mundo. E no entanto, ainda servia para o uso, o que tornaria uma aberração o seu descarte. Não me restou senão aquiescer. Habituei-me a vê-la assim, com um discreto machucado, como uma pessoa se habitua a uma cicatriz.
Sim, é possível habituar-se à imperfeição. Desde que se perceba que as coisas imperfeitas são, na verdade, imperfeitas porque usadas, manuseadas, vividas. Só o que não tem uso ou vida permanece intacto, incólume. E o que é desprovido de uso ou vida é também desprovido de valor.
Leia-me bem: não se trata de deixar a casa cair, de não se fazer reparos ou manutenções. Nem de negligenciar o estado terminal de certos objetos ou relações. Trata-se apenas de uma espécie de aceitação daquilo que não pode ser mudado porque mudado está. Aceitar que as coisas, ou relacionamentos, só têm continuidade e permanência quando_ ao consentir que se encontrem mudados_ mudamos também. Serve pra minha chaleira. Mas pode bem servir pra todo o mais.
Continuo gostando das coisas (aparentemente) perfeitas. Continuo gostando das coisas organizadas e de quando tudo dá certo. Mas estou aprendendo a amar a imperfeição. Não só a das coisas. Também a das pessoas, a dos relacionamentos, a da natureza. Porque no centro de toda imperfeição está a mudança, o movimento, que nos impõem lançar mão de um novo olhar sobre o mundo. Sem esse olhar resvalamos para um perfeccionismo que neurotiza, frustra e decepciona, porque jamais será real. O real é da ordem do imperfeito. E não raras vezes, pode ser belo e bom.
E há, finalmente, aquelas imperfeições que só nós mesmos conhecemos, sejam do corpo, sejam da alma. As mais íntimas, mais resguardadas. Não há que revelá-las. Tampouco esforçar-se para ocultá-las. Há apenas que saber com elas conviver. Só aprendemos a amar a imperfeição quando nela nos reconhecemos.
Gosto, sim, de pensar que as coisas_ às vezes, mas só às vezes_ estão perfeitas. Mas também gosto que estejam_ no mais das vezes_ imperfeitas. Vê-las como são, em sua mais completa imperfeição, me aproxima do que é real. E descubro a cada dia que a vida assim não só é possível como é (bem) melhor.
A chaleira Les Creuset de Cris…
Maravilhoso! Me emocionou muito… pois tem a ver com o momento que estou passando! Obrigada Cris!! Mexeu com vocês também? E não deixem de visitar o blog maravilhoso de Cris, Mania de Citação, AQUI !!
Há um pequeno romantismo nas coisas pequenas. No copo sobre a mesa e na vela. Na névoa e, sobretudo, nas pequenas gotas de chuva sobre os galhos.
Há um não-sei-quê de mistério nessas pequenices. Objetos inanimados, cenários que se oferecem à contemplação, a natureza e sua naturalidade. Tudo espera. Que lhes seja atribuído um olhar de significação e sentido para além do simples fato de estarem ali, (dis)postos na mesa ou no mundo. Que lhes seja restituído o valor de provocarem alegrias pequenas.
De súbito, recordo MadreDeus: “coisas pequenas são/ coisas pequenas/ são tudo que eu te quero dar/ e essas palavras são/ coisas pequenas/ que dizem que eu te quero amar/ amar, amar, amar/ só vale a pena/ se tu quiseres confirmar/ que um grande amor não é /coisa pequena/ que nada é maior que amar.”
Há, sim, um pequeno romantismo nas coisas pequenas. E há um só motivo para havê-lo: o romantismo maior que mora dentro. De mim. De ti. De (quase) todos nós.
“Qual a natureza do tempo? Um dia ele chegará ao fim? Podemos voltar no tempo? Talvez, um dia essas respostas se tornem tão óbvias, quanto saber que a terra orbita o sol, ou tão ridículas quanto a teoria das tartarugas gigantes. Apenas o tempo, seja lá o que for dirá.” (trecho do filme)
Como saber se não vivê-lo?
A Teoria de Tudo, de James Marsh, não ganhou o Oscar de melhor filme. Levou cerca de 10 anos para ficar pronto, inspirou-se em um drama real, abstraindo com a licença poética que a história permite, as dores de Stephen e Jane Hawking para se tornar nas telas do cinema a maior e mais bela história de amor dos últimos anos.
Não se trata, aqui, de classificar a produção, nem os atores, nem os meios, nem o quanto custou a obra. Mas, de falar da mensagem muito bem contada em cada cena do longa inspirado no livro Viagem ao Infinito de Jane Hawking.
A Teoria de Tudo é – apesar da omissão dos dramas pessoais vividos pelos protagonistas reais- o exemplo daquilo que o amor é capaz: transformar, superar, suportar, perdoar, cativar e manter vivo. Fica muito bem explícita a ideia de que o milagre do amor que pode tornar a vida especial. O amor de Stephen pela física e por Jane, de Jonathan por Jane, de Stephen por Jane e Jonathan, de Stephen pelos filhos, dos filhos por Stephen, dos pais de Stephen por ele e dos amigos. O amor, só o amor, na sua forma mais genuína.
É a história real de um romance, onde as dificuldades ficam subentendidas para que cada telespectador – mesmo encantado com as cenas muito bem traçadas pelo roteirista e diretor nos cerca de 123 minutos da película – compreenda que amor e sacrifício às vezes andam juntos e, que para amar de verdade, é necessário, também, de compromisso e respeito. Algo raro no mundo em que muitas relações são superficiais.
Compreender que na década de 1960 uma doença, até hoje tão assustadora- esclerose lateral amiotrófica (ELA) - foi incapaz de derrotar, não apenas o Stephen Gênio mas, antes de tudo, o Stephen homem de carne, ossos, órgãos e incertezas, como todos nós, é reconhecer a capacidade de superação que o ser humano possui quando se permite.
E se nem tudo são flores, a Teoria de Tudo ainda nos causa repulsa, quando Hawking deixa a mulher para ficar com a enfermeira, após anos de dedicação de Jane. Mas, por que não? Ele não poderia ser feliz ou amar outra vez? Jane também não teria esse direito? Que tipo de felicidade ou definição de amor ditados pela sociedade estamos condenados? Você saberia me dizer? O que sabemos sobre o amor? Teorias, ou práticas reais?
Ora, sabemos da nossa vivência e tendemos a traçar opiniões sobre a vida a partir dessas experiências, inclusive, sobre a vida de outras pessoas. Na leveza em que a história do filme foi contada, essas relações poderiam ser consideradas ideais, e se transformar em mais uma lição de resignação para espectador. Afinal, essa civilidade dos personagens, impressiona! Beira a fantasia! Bela fantasia!
Quem não gostaria de superar com sucesso o calvário de uma vida na qual não se sabe quantos dias exatos ainda lhe restam, ou quanto tempo poderá contar com as pessoas que lhes cercam. É preciso ter muita fé em si mesmo, muita esperança e paciência. Quantas histórias reais de superação você conhece?
Durante o filme é fácil apanhar-se em pensamentos inquisitores é natural questionar a própria condição e lembrar da falta de amor por si, ou pelos outros. É fácil também sentir-se incomodado com a família de Stephen recriminando Jane quando, finalmente, uma terceira pessoa começa a fazer parte da vida do casal, aliviando-os das dores cotidianas da dura rotina.
Nesse ponto o filme nos faz admirar a ideia da tranquilidade com que Stephen recebe Jonathan como parte dessa família. Ele tinha medo da morte e queria alguém para cuidar dos filhos e da esposa. Como recriminá-lo? Seria isso possível? O amor é isso? Ou, isso seria a ausência do amor?
Gosto de filmes que me fazem refletir sobre a condição humana. A Teoria de Tudo traz à tona o fato de que somos responsáveis por nossas próprias escolhas. Decidimos viver, ou morrer? Lutar ou se entregar? Amar? Deixar o outro amar? Ir quando deve ir, voltar quando deve voltar?
E o que mudou de uns anos pra cá? Quanto amor deixamos de sentir quando a primeira dificuldade bateu na porta? Nem a curta expectativa de vida do físico fez a protagonista desistir do relacionamento. Embora os motivos desse casamento na vida real possam ter sido outros, a mensagem do filme sempre será sobre o poder transformador do amor.
Amor, o mais puro amor; sentimento capaz de dar a Stephen e Jane Hawking, ao longo dos quase 30 anos de casamento, força suficiente para encarar a doença degenerativa que tirou do físico os movimentos do corpo, mas não tirou a capacidade de acreditar em si mesmo.
O discurso do filme em nenhum momento admite a ideia de que para manter um casamento é necessário subjugar-se. Ao contrário, prega a liberdade de escolha, mesmo diante de uma vida de dificuldades.
Tão brilhante quanto o Stephen Hawking, muito bem representado por Eddie Redmayne, a Teoria de Tudo conta a trajetória de sucesso do jovem astrofísico, entra para história do cinema sem o tão almejado Oscar de melhor filme, mas vem ganhando o respeito e a gratidão de centenas de espectadores, com uma mensagem mais do que bem-vinda para todos nós: Enquanto há vida, há esperança.
Eita post perigoso!! Mas não resisto! Fiz uma entrevista ao The Royal Man sobre os segredos que um homem tem que saber para conquistar a sua mulher e fiquei pensando também no que nós mulheres deveríamos saber para conquistar e segurar o nosso homem!! Hehe!! Lógico que isto são só os meus truquezinhos… e vou colocar um block para o Robbie não poder ler este post!!
Primeiro uma explicação… Honestamente acho que sou uma mulher bonita hoje, especialmente quando me arrumo. Lógico que vejo os sinais da idade, que sei que sou melhor na parte de cima que de baixo, que meu nariz poderia ser mais fino, etc e tal… Mas no total, me sinto segura. Porém, não foi sempre assim. Como adolescente fui bem gorducha, e muito pouco linda. Um patinho feio mesmo. Analisando hoje, acho que isto me fez bem. Certamente me fez ser introspectiva e simpática! Tinha que compensar de algum jeito!! Mas na época era doído…
1986
No ginásio no carnaval…
Vamos ver se vocês me encontram…
Daí na universidade me apaixonei, fui atrás e pimba! Primeiro namorado.
Mark em ’86
Nos re-encontramos na reunião de 25 anos da universidade.
Emagreci e fiquei bem mais bonitinha!! Sujeito muito inteligente mas sui-generis. Aprendi bastante com ele. Cresci muito!! Mas fiquei muito obcecada por ele e deu no óbvio… perdi o nêgo… Mas não demorou muito..hehe!! Logo, logo enrosquei com o vizinho de quarto.
Chris em ’86
Um doce de gatinho com a alma gentil que gostava de correr. Foi uma delícia conhecer com ele a beleza das coisas simples. Ele vinha de uma família com 6 filhos e tudo era concorrido. Para vocês entenderem, um ano para o natal, ele me tricotou um cachecol e fez uma linda caixa de madeira com dentro um coração (com as nossas iniciais) que ainda guardo com enorme carinho.
A caixinha feita pelo Chris
Foi quando conheci meu marido e pai das crianças enquanto trabalhava na Bloomingdale’s em Nova Iorque. Ele me importou para Florença em 1990 quando nos casamos. Os filhos nasceram em ’93 (Cosimo) e ’96 (Allegra) e em 2000 nos separamos.
No dia do meu casamento com Francesco em Florença. 21 de Abril de 1990
Tive outro namorado por 9 anos, o Andrea. Ele foi uma ótima transição do meu marido à volta da vida single. Ele era muito envolvido com sua vida anterior (filha e ex-esposa) o que me forçou a ser independente. Foi uma linda estória, mas ele nunca me fez sentir segura ao seu lado e a coisa foi deteriorando…
Foi aí que conheci o Roberto (foto lá em cima) através do Facebook… Hehe!! Nos encontramos na página de um amigo em comum comentando na música do Pink Floyd. Ele achou que eu era um camionista fingindo de ser a Consuelo e no nosso primeiro encontro, ele me esperou atrás de um jornal aberto com furos para os olhos. Só depois de conferir que eu era quem dizia ser, se apresentou!! Hahahaha!!! Estamos juntos desde 2010.
Ele sempre me fez sentir segura e a única mulher no salão!! SQN!! Ele adora a mulher e a beleza (Libra) e consigo adivinhar se ele está admirando outra mesmo se ele estiver andando atrás de mim! Já fiz gestos indicando que ele se comportasse sem nem virar!! Hahahaha!! Ele ficou pasmo!! (Compreensiva, sim, burra, não!!) Mas nunca me sinto ameaçada! É a melhor sensação do mundo!!
Aí está, a estória dos meus amores… Tive poucos mas bons e estou feliz assim. Bem com esta experiência, aprendi alguns truques. Alguns aplico bem, outros só teoricamente… mas valem do mesmo jeito!! rssss!
Lá vão!
1. Sorrir! Nada é mais atraente do que um sorriso. E não vale só rir de boba. Tem que olhar nos olhos da outra pessoa, escutar o que está dizendo enquanto se aprende quem é e rir completamente!! Muitas pessoas dizem que eu rio com os olhos, é porque coloco todos os músculos a trabalho quando rio, e isto me faz sentir bem! Nada é mais atraente!! ( E agora que o rosto está caindo, o sorriso ajuda a levantá-lo também).
2. Se cuidar! Falamos sobre cuidar de nós mesmas no texto incrível da Cris Zanferrari AQUI. Bem, é imprescindível para segurar a pessoa que você ama. Só quando estamos de bem consigo mesmos, podemos dar o amor e carinho que o outro não só merece mas quer. E isto é a forma mais natural que eu conheço para segurar o meu homem. Ou ficar ao meu lado? Não digo que temos que ser jovens ou magras a vida toda, mas temos que fazer o esforço para estar bacanudas!! Por exemplo, sempre espero o meu homem vestida, perfumada e maquiada!
3. Ter os teus próprios interesses! Podem ser grandes ou pequenos, mas é uma responsabilidade ter interesses próprios e se manter informada. Só assim se cria uma opinião para poder-se ter uma conversa interessante e rica com quem está ao teu redor. Acho isto também muito importante como mãe.
4. Dar a liberdade ao outro! Cada um é um ser humano. Vamos ter amigos e atividades em comum e outras não. E ainda bem!! Essa história de estar colado a cada momento é complicado… Não dura muito ao longo… Melhor dar tempo a cada um para exercer seus hobbies, ver seus amigos ou simplesmente pensar…
5. Compromise! A tradução diz compromisso, mas não tenho certeza que seja isto. Com compromise eu quero dizer que a gente tem que entender quando dar algo, para obter algo, nem que seja a paz ou felicidade do outro. Mas chega um momento quando tem o vice-versa!!
6. Respeitar o outro! Ah, isto é essencial! Respeitando o admiramos… e me diga o quanto isto é sedutor!!! Em alguns momentos de um relacionamento, não respeitava mais o meu companheiro. Me transformei em uma pessoa com o meu companheiro que eu mesma odiava! Como poderia ele então me amar? Estas foram as ocasiões que ganhei de presente as maiores traições!! Mas também foram culpa minha!
7. Mimos! Preparar pequenas surpresas pensadas especialmente para a pessoa! Não precisa ser caro. O Roberto me fez um lindo CD com as músicas mais bacanas do momento e incluiu várias que ele viu aqui no blog no Jam Session (post AQUI). Tenho uma amiga que prepara o drink preferido do marido que o encontra geladinho na hora que entra em casa! Isto aquece muito um relacionamento!
Hors concours. Morar separados. Essa vale para mim, não para todo mundo… Para mim, uma vez que já casada e com filhos, gosto de ter o meu espaço. Robbie vem jantar e dormir, mas só tem uma gaveta na minha casa. Para mim (capricórnio) meu espaço é importantíssimo… e ele não liga! Falei que ele é bacana, não?…
Acho que a conclusão é que não podemos depender um do outro para sermos felizes. É importante trazer algo ao relacionamento!! Sem dúvida!! Isto o enriquece, mas tem que existir um equilíbrio! Quase tudo que mencionei acima tem a ver com isto, respeito e equilíbrio. E vale ainda mais quando chegam os filhos, que, logicamente, desequilibram tudo… Tem que se re-encontrar o equilíbrio do casal!
Lembrem disto! Quando estiverem em um momento difícil, complicado, confuso… como posso colocar esta situação em equilíbrio, sendo respeitosa?… Acho que a solução será bem mais eficiente.
Quando estava me separando, fomos ver um analista de casais. Prática como sou, depois de algumas sessões enroladas perguntei a ele qual a fórmula de sucesso para um relacionamento. Ele disse: “Nós chegamos ao matrimonio cada um com as suas regras e costumes das nossas famílias anteriores. Para um casal funcionar, ele tem que criar suas novas regras e costumes do novo núcleo.”
A querida Cris Zanferrari, que começou o seu lindo blog Mania de Citação, nos oferece outro texto maravilhoso… O que existe de mais importante do que cuidar de nós mesmas?… Fico sempre impressionada em como a Cris capta e põe em palavras exatamente como me sinto!! Ela explica claramente e coloca no preto e branco o que só conseguia intuir!!
Este texto de hoje é de enoooormeeee importância!!! Minha mãe me diz sempre “Cuide-se!” e eu meio que faço sim com a cabeça e abano a mão com a mente… Mas leiam mais para entender o amor que requer cuidar de si mesmo!…
“Território interior”
Cris M. Zanferrari
Dia desses alguém me aconselhou: “Cuide-se. Se você não se cuidar, não poderá cuidar dos outros.” Compreensível para quem, como eu, é mulher, com trabalho, família e filhos, incluídos o cachorro e o papagaio (estes últimos é só um modo de dizer, se me permitem fazer uma graça). Compreensível para quem é mulher. Ponto. Ser mulher já é em si trabalhoso, o que dirá com todos esses periféricos. A gente se desdobra (“mulher é desdobrável”, recordo Adélia) para dar conta do mundo. Mas como é mesmo que a gente cuida de si?
Ah, sim, as revistas, especialmente as femininas, recomendam reservar um tempo da semana para se fazer algo em benefício próprio e sem sentimento de culpa, o que pode significar desde bater perna no shopping até fazer aulas de yoga, passando por alguma terapia ocupacional ou simplesmente se jogar no sofá tendo por companhia tão somente uma bela playlist. Que ajuda, ajuda. Desde que não se esteja vendo as vitrines e consultando o relógio ao mesmo tempo, afinal há que se pegar o filho no inglês. Ou que se esteja no meio de um ásana enquanto a mente programa o cardápio do dia seguinte. Ou ainda que se esteja ouvindo a melhor música da seleção quando se lembra que esqueceu de cancelar aquela consulta ao dentista. Cuidar de si? Mais fácil cuidar dos outros.
Enquanto cuidamos dos outros ficamos assim, desobrigadas do cuidado conosco. Porque se cuidar não é coisa que requeira apenas tempo. Cuidar-se requer uma boa dose de entrega, e é tão difícil se entregar. Entregar-se para o momento, permitir-se usufruir do instante, colher o minuto presente com o cuidado e a atenção de quem atravessa uma rua. Entregar-se é um ato de quem acredita merecer.
Claro, a gente merece que nos cuidem um pouquinho quando adoecemos, quando sofremos uma fratura, um acidente, ou uma perda. Chegamos a aceitar que nos acompanhem ao médico, que nos façam um chá, que nos façam companhia. Fragilizados, nos sentimos merecedores. Mas e quando estamos bem? Por que relutamos em aceitar ou solicitar certos cuidados? Desconheço os mecanismos psicológicos (quem sabe até antropológicos) que nos inibem, nos resguardam, nos tolhem a capacidade de receber afeto em forma de cuidado, mas vou chegando à humilde conclusão de que cuidar de si é também deixar-se cuidar pelo outro.
Quando se aceita, genuinamente, um agrado ou um simples elogio, é como se reconhecêssemos nossa humana fragilidade, e com ela toda a necessidade que temos de receber, de vez em quando, um certo tipo de amparo. Qualquer um. Que funcione como um lembrete de que não nos bastamos, e de que, apesar de irremediavelmente sós, temos uns aos outros. Saber-se cuidado e bem quisto pelo outro é, por si só, garantia de alguma saúde emocional.
Lembro de Caio Fernando citando Adélia: “É preciso preservar o território interior”. Mas como?, pergunta-se Caio, pergunto-me eu, perguntamo-nos todos. E penso, subitamente, que sempre há a possibilidade da introspecção. Quando calados, imersos no próprio turbilhão mental, ainda podemos tentar silenciar. Não o silêncio que é ausência de ruído ou de palavras, mas o silêncio que suspende o julgamento e que nos lança para dentro de nós mesmos. Algo assim como um resguardar-se, guardando para si certas opiniões (ou até mesmo o direito de não ter de opinar sobre tudo o tempo todo), sendo mais autoindulgente diante de um brigadeiro ou de faltar à academia, sendo mais autocomplacente diante do espelho e da opinião alheia.
Cuidar de si mesmo deveria ser simples como olhar a chuva caindo lá fora. Mas porque não o é, é que existem no mundo arte, literatura, flores, crianças e animais. Pequenas ternuras com as quais também é possível preservar e abastecer nosso “território interior”.
Se vocês gostaram deste texto, vão adorar o Instagram de Cris Zanferrari, Prosapoesia.
Eu adorei e senti a necessidade de compartilhar com todos que aqui sintam vontade de "se cuidar" um pouco em devaneios necessários à sobrevivência da alma.
O MITO DE PERSEU – VIOLÊNCIA E SENSUALIDADE NA LOGGIA DEI LANZI
O mito de Perseu – Violência e sensualidade na Loggia dei Lanzi
Por Luciene Felix Lamy
Perseu e a cabeça da Medusa (1545-1554), escultura em bronze por Benvenuto Cellini. Loggia dei Lanzi, Piazza della Signorina, Florença. Observem a semelhança nos traços faciais de ambos: fitar Medusa é encarar nossas próprias motivações interiores (são lícitas, válidas, justas?), daí o risco de petrificar-se.
Amigos do ConsueloBlog, costumeiramente encaminho meus post’s no final do mês, mas me entusiasmei em presenteá-los com este post sobre Perseu por uma razão muito especial. Explico.
Contemplar o belo é fundamental à vida e, nas sábias palavras do pai da psicanálise Sigmund Freud, a suave narcose a que a arte nos induz ocasiona um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais. Para ele “A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuemente intoxicante. (…) A civilização não pode dispensá-la”.
Desde que anunciei a proposta daMala CULTURAL para a Europa (AQUI ), curiosamente (mas não por acaso), Florença tem sido o principal destino daqueles que me procuram para munir-se de conhecimentos prévios sobre Arte. São pessoas que, buscando a contemplação do belo no berço do Renascimento, decidiram enriquecer a viagem priorizando as visitas aos museus, igrejas e galerias.
Mesmo que voltados a seus afazeres profissionais, muitas vezes altamente especializados, os turistas se empenham em viajar munidos de uma base que os permita desfrutar com mais profundidade o legado dos maiores gênios da humanidade. Constatemos abaixo, o quanto é importante estar preparado para enxergar tudo que se vê.
Sob o olhar de Héracles (Hércules), o jovem Perseu ostenta a cabeça da rainha das Górgonas, Medusa.
Nenhum elemento é inserido ao acaso. Caprinos são venerados. À cabra Almatéia é sempre destinado lugar de honra (também nesse post!), pois foi graças a seu leite que o soberano do Olimpo, o todo-poderoso Zeus (Júpiter/Giove) sobreviveu para enfrentar seu pai, Chronos (Saturno) e libertar seus irmãos.
Eis meu relato sobre o mito de um dos mais famosos monumentos (do latim “monumentum” lembrando, de “monera” lembrar) florentinos: o jovem Perseu ostentando a cabeça da rainha das Górgonas, Medusa. Por que Perseu?
Bem, além de ser um herói dos mais antigos, Perseu será avô de ninguém menos que Héracles (Hércules) e vocês encontrarão o instante de sua fecundação pelo soberano do olimpo, Zeus (Júpiter) e o momento em que ele salva Andrômeda, aonde quer que estejam (Praga, Viena, Paris, Roma, Londres, Berlim, Nova Iorque, Madrid, São Petersburgo, etc.), pois trata-se de duas das cenas mais belamente retratadas em toda História da Arte: a chuva de ouro sobre a princesa Danae e Andrômeda presa ao penhasco Se não se importam, intercalarei o relato do mito de Perseu com algumas dessas imagens.
Danae fecundada por Zeus (Júpiter) com uma chuva de ouro, por Paolo de Matteis (1702-05) – Detroit.
Seguramente, maior precursor de nossos contos de fadas, o mito de Perseu, como todo legado grego, revela elementos universais à nossa condição humana e divina. Com direito a princesa encerrada numa torre, abandono de inocentes, hýbris(desmedida), monstros terríveis, cavalo alado e outras surpresinhas no percurso.
Vamos às façanhas relatadas por Hesíodo, Píndaro, Apolodoro e Ovídio entre outros aedos (poetas). Imortalizado, juntamente com Teseu, Hércules e Atalanta, Perseu é um dos quatro grandes heróis anteriores à guerra de Tróia.
Em Argos, havia um nobre rei chamado Acrísio, que desejava muito ser pai de um menino. Mas sua rainha, Eurídice só gerara uma menina, a dócil e bela Danae.
Certo dia, curioso por saber se o destino ainda lhe reservaria um varão, Acrísio foi consultar o Oráculo de Ámom e saiu de lá transtornado: ouvira a profecia de que, não só jamais seria pai de um menino como teria sua morte causada pelo próprio neto.
Desolado, Acrísio, que amava muito a filha, para não matá-la e despertar a ira das Erínias, que puniam severamente quem derramasse sangue do próprio sangue, decide trancafiá-la numa intransponível torre de bronze onde, tendo somente uma criada por companhia, estaria a salvo das ebulições hormonais que compelem ao desejo de se unir.
Insone pela angústia que o dominava, certa madrugada, Acrísio se levanta para tentar espairecer e qual não foi sua surpresa ao flagrar uma ofuscante e luminosa chuva de ouro caindo dos céus diretamente para dentro da torre. Imediatamente, o rei convocou sua guarda e, com violência derrubou a porta que havia selado com tanto empenho.
Espantado, deparou-se com a filha acalentando seu neto nos braços. Indagada sobre quem seria o pai, relutante, Danae confessou que fora fecundada por Zeus. “Mas como?” Insistia o incrédulo rei.
Danae, por Tiziano Veccellio (1553) – Museo del Prado, Madrid.
Foi então que Danae lhe revelou que o soberano do Olimpo se metamorfoseara (metáfora bela para o Espírito fecundado a matéria) em chuva de ouro.
Acrísio estava aturdido! A explicação da jovem parecia absurda, sem dúvida, mas a torre era mesmo absolutamente inviolável a qualquer mortal.
Mesmo temendo vir a sofrer algum castigo por parte de Zeus, ele despacha filha e neto numa precária arca de madeira, lançando-os ao mar.
A criança exposta, abandonada ao acaso, é recorrente em diversas narrativas mítico-religiosas: Édipo, Hefestos, Hércules, Perseu, Páris, Egisto, Atalante, Rômulo e Remo, Moisés e o próprio Zeus, entre outros. Atemporal, como todo mito, infelizmente esse drama é testemunhado até os dias de hoje, quando nos chocamos com a notícia de recém nascidos abandonados até mesmo em lixeiras.
Quer seja por, mais que revelar, explicitar ato desonroso por parte de um ou ambos os progenitores, por portarem predições de infortúnios ou serem simplesmente vítimas de más formações congênitas, inocentes eram transformados em bodes expiatórios e banidos, sacrificados a fim de se ocultar uma falta ou aplacar a ira divina.
Mas, se por acaso da Fortuna escapassem à morte certa, ocorria o diametralmente oposto: eram imediatamente sacralizadas. Sobreviver era interpretado como uma mudança do sinal divino.
E, se fora essa a vontade dos deuses, por conversão do destino, esses cordeiros tornavam-se intocáveis, reverenciados, extremamente benéficos, pois portadores de bons augúrios àquela família e comunidade que os acolhera.
Danae, por Corregio (1531) – Galleria Borghese, Roma.
Foi justamente isso o que aconteceu com Danae e seu pequeno Perseu. Algas e outros alimentos marinhos submergiam, pairando ao alcance das mãos da jovem mãe, para quem o leite materno era abundante. O próprio Zeus, afastando Poseidon (Nettuno), providenciou que fosse a mansidão do velho Nereu a presidir o mar, mantendo-o de águas límpidas e serenas. Também convocou Eólo, o vento de brisa suave a acompanhá-los até que a improvisada e fragilíssima nau (embarcação) aportasse em segurança na ilha de Sérifo.
Mãe e filho foram acolhidos pelo irmão do rei de Sérifo, um humilde pescador chamado Díctis e sua gentil mulher. Não tardou muito, o cruel e implacável tirano da ilha de Sérifo, Polidectes apaixonou-se pela beleza de Danae que, relutante em tomar quem quer que fosse por marido, só se ocupava dos cuidados com Perseu, que crescia forte e ia revelando uma personalidade desafiadoramente ousada e destemida.
Confabulando num modo de tirar o ciumento e zeloso filho do caminho, Polidectes mente que irá se casar com Hipodâmia, princesa de um reino vizinho e a fim de comemorar a decisão, organiza um banquete. Todos os súditos o presenteiam. Perseu não tem nada a oferecer, mas orgulhoso, no intuito de se destacar entre os demais que haviam trazido cavalos, tecidos ou ouro, se precipita ao declarar, diante de todos, em alto e bom tom que traria um presente digno de um rei tão “desinteressadamente hospitaleiro”: a cabeça da rainha das Górgonas, Medusa.
“Isso me agradaria mais que qualquer outro presente no mundo”, apressou-se em dizer Polidectes. O imprudente Perseu caíra na cilada! Livrar-se do filho para poder desposar a mãe era tudo o que o rei de Sérifo mais desejava. Após reiterar que não se promete algo que não se pode cumprir – ao que Perseu, com toda altivez, reafirma: “eu a trarei”, Polidectes não disfarça seu irônico sorriso de satisfação.
Perseu e Andrômeda, por Charles André Van Loo (entre 1735/40) – The State Hermitage Museum, St. Petersburg, Russia.
Filho legítimo do próprio Zeus, Perseu é afortunado. Conta com a ajuda de outros deuses, convocados a orientar e enviar os instrumentos necessários à realização de tal proeza: a espada de ouro e as sandálias aladas de Hermes (Mercúrio), o elmo de Hades (Plutão), que o torna invisível e, de Athena (Minerva) o reluzente escudo de bronze, além da bolsa de prata, única capaz de conter a cabeça da Górgona.
Ao vencer Medusa (sua mão fora guiada pela própria deusa da sabedoria e justiça, Palas Athena), Perseu testemunha o nascimento de Pégasus (até mesmo a criatura mais vil, traz em si algo de elevado) e, em algumas versões, de Crisaor.
Monta-o, voa e percebe que as gotas de sangue que caem se transformam em venenosas serpentes que se apressam a rastejar pela terra.
Pégasus é filho da outrora bela, Medusa com Poseidon, tendo sido concebido ao profanarem o imaculado leito da virginal Athena, que a castigou por essa aviltante infâmia transformando-a num monstro.
Enquanto isso, noutro seio familiar, a fútil e presunçosa rainha Cassiopéia, imprudentemente proclama que sua filha, a realmente deslumbrante Andrômeda, é ainda mais bela que a própria deusa Hera e as Nereidas (ninfas) de Poseidon (Nettuno). Essa reivindicação de superioridade sobre divindades desencadeia polemós (polêmica) entre os fraternos deuses Zeus, Hades e Poseidon.
Perseu e Andrômeda, por Guido Reni (1635) – The National Gallery, Londres.
Cassiopéia não tarda a ver todo reino da Etiópia refém da violenta e furiosa ira dessas divindades. Desesperado, seu marido, o rei Celeu, busca o Oráculo para saber como deveria proceder para aplacar a fúria dos deuses.
Obtém a orientação de que deve acorrentar Andrômeda ao penhasco sacrificando-a a bestial criatura de Poseidon (Nettuno).
Regressando da missão à Ilha de Sérifo, montado em Pégasus, de longe Perseu avista a donzela presa a um rochedo: é Andrômeda, cuja beleza do corpo, adornado somente por joias e flores é tão paralisante quanto o olhar da Górgona. O herói avança em quebrar os grilhões, enfrenta, luta e, numa fúria de titãs, com Medusa, vence Kraken*, o terrível monstro marinho.
Andrômeda, por Edward Poynter (1869) – Coleção privada.
Apaixonado, com a gratidão e as bênçãos de Cassiopéia e de Celeu, casa-se com Andrômeda e parte para vingar-se de Polidectes. Chega exatamente no momento em que o ardiloso rei encontra-se no salão em festa, pronto para desposar a sempre relutante Danae. Ordenando que a mãe feche os olhos, Perseu puxa a cabeça da Górgona pelos cabelos/serpentes e a ergue diante de todos, petrificando-os imediatamente.
Ansioso por regressar à Grécia e conhecer o avô Acrísio, por quem não guarda rancor, Perseu decide antes disso, participar da competição de atletismo que o rei de Larissa estava realizando. Chegada sua vez de arremessar o disco, ignorando que o avô estivesse na arquibancada, Perseu lança-o e, guiado pela vontade dos deuses, atinge-o em cheio: Acrísio tem morte instantânea. Desolado por conta desse acidente, o herói parte de Argos e funda Micenas.
Venerado em Sérifo, Argos, Micenas e também no Egito, onde foi erigido um templo em sua homenagem, Perseu foi imortalizado no céu entre as constelações setentrionais. Seu filho com Andrômeda, Eléctrion, será pai de Alcmena, que se casará com Anfitrião, ou seja, Perseu é o avô de outro grande e inspirador herói grego: Hércules.
(*) Nome tomado da mitologia nórdica, mas o monstro é o mesmo; uma espécie de Leviatã. reparem que a possui a mesma raiz semântica de kratós (Poder).
Vamos à análise da Obra.
Benvenuto Cellini nasceu e morreu em Florença (1500-1571). Famoso ourives, escultor e gravador, trabalhou para imperadores, reis, papas e príncipes. A vida tempestuosa de Cellini é descrita em sua autobiografia, que entre outros episódios contundentes, narra sua prisão por roubar as jóias da coroa papal. Infelizmente, a maioria das obras pequenas de Cellini – medalhas, taças e adagas – foram fundidas. No entanto, muitas de suas obras-primas maiores sobreviveram.
No torso do herói, uma faixa transpassada com a grafia em latim do nome do escultor: Benvenutus Cellinus.
Consta que Cellini esculpiu traços de seu próprio rosto na máscara de guerra usada por Perseu em sua batalha contra Medusa.
Detalhe do corpo de Medusa, já decapitada pelo herói Perseu. Observem, no canto superior direito, os dedos dos pés de Perseu pisando o corpo dela. No cristianismo, também será recorrente a imagem de Nossa Senhora pisando, subjugando serpentes.
Detalhe da cabeça da rainha das Górgonas, Medusa.
A perversão da pulsão espiritual, por excelência, é a vaidade (imaginação exaltada em relação a si mesma) que é simbolizada pela serpente. Em Medusa, inúmeras serpentes coroam sua cabeça.
No frontispício do templo de Apollo (irmão de Athena), deus da harmonia, leem-se as palavras que resumem toda a verdade oculta dos mitos: “conhece-te a ti mesmo”. A única condição do conhecimento de si mesmo é a confissão das intenções ocultas, que por serem culpáveis, são habitualmente maquiadas pela vaidade (por uma justiça falsa, pois sem mérito, infundada). A inscrição reveladora significa, portanto: desmascara tua falsa razão, ou, o que dá no mesmo, aniquila tua vaidade. Faz-se necessário a clarividência em relação a si mesmo, o inverso do ofuscamento vaidoso e petrificante.
Ver Medusa significa: reconhecer a vaidade culposa, perceber a nu suas falsas razões, suas intenções ocultas, a mentira subconscientemente desejada, o recalcamento, as falsas razões, o que ninguém consegue confessar a si mesmo, da qual ninguém suporta a visão.
Para derrotar a Medusa, foi necessário que o herói a surpreendesse enquanto dormia pois o homem somente é lúcido e apto ao combate espiritual quando a exaltação de sua vaidade não está desperta. Arma muito cobiçada, mesmo morta, a cabeça da Medusa continuou mantendo seu poder de petrificar quem a encarasse.
Contra a culpabilidade advinda da exaltação vaidosa dos desejos, não há senão um único meio de salvaguarda: realizar a justa medida, a harmonia. Mas a rainha das Górgonas não é invencível.
A cabeça da Medusa foi presenteada por Perseu à deusa da sabedoria e justiça Palas Athena (Minerva), que o auxiliou em combate emprestando-o seu escudo, para que não a encarasse e ficasse estagnado.
Antes de merecer o apoio de Athena, todo mortal deve encarar o símbolo da decadência espiritual (a vaidade). Somente assim têm-se certeza de que sua reivindicação não oculta outra intenção, ou seja, não é capricho, teimosia. Ante a imagem da Medusa, quem busca a deusa clamando por justiça tem somente duas possibilidades: contar com sua proteção, se já passou pela prova da Medusa (vitória certa) ou imobilizar-se no pânico e petrificar-se.
Convém esclarecer que Medusa nem sempre fora assim… Ela bela, muito formosa e cobiçada. Mas como esclareci acima, ousou profanar o leito da deusa virgem com Poseidon (Nettuno) e por isso Athena a transformou nesse monstro terrível. Quando a lâmina de Perseu a decepa, surge Pégasus, o cavalo alado. Uma das interpretações que se faz é que mesmo a criatura mais vil possui algo de belo, elevado e nobre dentro de si.
Na base da obra, temos as esculturas de quatro deuses gregos: Zeus (Júpiter) e seus filhos: a deusa da sabedoria e justiça, Palas Athena (Minerva), o mensageiro dos deuses, Hermes (Mercúrio) e a deusa do amor e da beleza, Afrodite (Vênus).
Zeus (Júpiter) tem seu braço direito erguido, onde segura seu raio.
Palas Athena (Minerva) deveria estar portando sua lança, símbolo da luta (a ser empreendida quando não resta outra alternativa) pela Justiça.
Hermes (Mercúrio) e suas sandálias aladas.
Afrodite (Vênus) e seu filho Eros (Cupido).
Abaixo do pedestal discriminado acima, temos ainda essa placa de bronze em relevo retratando detalhes da luta do herói enfrentando o monstro marinho Kraken, a bela princesa Danae acorrentada pelo braço esquerdo, Perseu prometendo trazer a cabeça da Medusa e seus pais, rainha Cassiopeia e o rei Celeu, pranteando o sacrifício da jovem.
Confira abaixo mais duas trágicas e sensuais esculturas da Loggia dei Lanzi:
O rapto de Polyxena (1886), por Pio Fedi.
O rapto da Sabina (1581/83), por Giambologna.
Por influência de meu querido pai, sempre fui apaixonada pela mitologia grega. Foi por isso que quando pisei pela primeira vez no continente conhecido pelo nome da ninfa raptada por Zeus (Júpiter), me senti num ambiente, de certa forma, bastante familiar.
Conhecer os mitos gregos possibilita que, em qualquer país da Europa, para onde quer que olhe, seja qual for o Museu que visite, você seja arrebatado(a) pela cultura pagã. Verá o titã Chronos (Saturno, é o Tempo, filho do Céu “Ouranós” e da Terra “Gaia”) a engolir seus filhos, os olímpicos (filhos de Chronos e Rhéa) Poseidon (Nettuno), Hades (Plutão), Zeus (Júpiter), Deméter (Ceres), Héstia (Vesta), Hera (Juno) em todo esplendo e, também seus descendentes: Ártemis (Diana), Palas Athena (Minerva), Apolo (Hélios), Hermes (Mercúrio), Hefestos (Vulcano), Ares (Marte), sem falar de todos os semideuses, imortalizados em mitos, tragédias e nas narrativas de Homero e de Hesíodo.
Em virtude disso, convido-os a participar de nossa próxima Turma no Curso de Mitologia na Galleria Borghese,ministrado anualmente em Roma:
E, para aqueles que não puderem participar, informo que, periodicamente, realizo também o Curso de Mitologia Greco-Romana em SP (Higienópolis). Para dar conta de minha agenda, acabo de contratar uma diligente senhorinha para me secretariar, ela se chama Claudia Santos e seu e-mail é: cursoslucienefelix@gmail.com
Espero que tenham apreciado esse Post especial enquanto aguardam o próximo, sobre o posicionamento de Júpiter em seus mapas e o magistral florentino Michelangelo Buonarrotti. Beijos e até, amigos!
Por fim, ei-lo a nos encantar, tanto na terra quanto no Céu…
Constelação de Perseu
O relato de apenas UM mito e um vasto mundo de sublimidade se apresenta ao Espírito! Para mais obras sobre esse relato, busque no “Google Imagens” por:
Gustav Klimt – Leon François Comerre – Rosso Fiorentino – Sebastiano Ricci – Orazio Gentileschi – Charles Joseph Natoire – Jean Françoise de Troy – Antonio Bellucci – François Boucher – Eugène Delacroix – Cornelis Van Poeleburgh – Edward Poynter – Simon Vouet – Joachim Wtewael – Gustave Moreau – Artemisia Gentileschi – Alexandre Jacques Chautron – Rembrandt – Padovanino – Anton Raphael Meng – Eugene Soubiran – Jean Baptiste Creuze – Adolf Ulrich Wertmüller – Jacques Blanchard – Louis Matton – Piero di Cosimo – Paolo Veronese – Frederic Leighton e Luca Giordano, entre outros